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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Teresina, velha cidade nova

Teresina é uma cidade velha. Não é que seja uma cidade antiga. Conta só cento e cinquenta e poucos anos, o que significa bem pouco quando se trata de cidades. Mas é incontornavelmente velha, ou seja, avessa ao novo.

Por exemplo, Durante anos se lutou para trazer para cá uma escada Magirus, daquelas que a gente vê em filmes. A coisa custa caro. Foi preciso uma emenda no senado e anos de tramitação e negociação para que verba fosse finalmente liberada e a máquina finalmente comprada. Foi bom, porque neste ínterim se construiu em Teresina prédios com altura e em número suficiente para justificar a aquisição. Mas, quando a escada chegou, ó azar! A bicha era tão pesada que não poderia circular por todas as áreas da cidade. Seu peso pode afundar o chão e o desastre ser dobrado: além do fogo, a perda do brinquedo tão sonhado.

E o aeroporto? Quando foi construído, 43 anos atrás, ficava afastado de tudo, no fim do mundo. O tempo passou e a construção hoje está praticamente no centro da cidade, cercada de casas, com uma pista que não pode ser ampliada e carente de algo que em Teresina faz toda a diferença. Com o nosso clima equatorial (somos a capital brasileira mais próxima do Equador) e a falta de árvores em torno que amenizem o calor no aeroporto, a idéia de um finger faz todo sentido.

Fingers são aquelas plataformas que conduzem o passageiro direto da sala de embarque para a nave, sem necessidade de se expor às intempéries. Aqui em Teresina tem-se que caminhar sob o sol forte ou sob a chuva sem qualquer proteção. É uma necessidade que a tecnologia vem ajudar a resolver.

Então começa o calvário que havíamos visto no caso da escada. Emenda, discussão, negociação, tramitação e burocracia. Mas a coisa andou e a verba iria ser liberada, dependendo somente de um estudo técnico para verificar a viabilidade da compra. Eis então que a velhicidade entra em ação. O estudo mostrou que o aeroporto não é compatível com a modernidade. Ou se constrói um aeroporto novo, preparado para receber o trambolho ou nada feito. Bom, se para conseguir uma escada ou uma plataforma já foi difícil, imagine um aeroporto inteiro.

Outro exemplo é o do professor Puscas, da Universidade Federal do Piauí. Depois de 45 anos como fumante, o coração reclamou. A tecnologia e a ciência intervieram e ele foi operado para a implantação de três pontes de safena e uma mamária. Porém, com quase trinta e cinco anos de universidade, Teresina entrou em sua circulação sanguínea. Puscas é incompatível com o novo.

Sentado na pracinha da filosofia, pálido, ele fala sobre a dureza de viver sem o cigarro. Bom seria se este fosse seu único vício ultrapassado. Quando se reúnem em torno dele alguns alunos que o parabenizam pela recuperação, ele começa a lutar contra sua (deles) juventude e inocular o veneno da obsoletude e da evelhescência (obrigado a Cláudio Barros pela criação do termo).

"A pobreza", diz ele, "só subsiste no capitalismo. Sem pobreza não há capitalismo. Entre os índios, que se organizam de forma comunitária, não há pobreza". E os alunos de Serviço Social se encantam com as palavras do velho economista, incapazes de perceber as contradições entre o que ele diz e a realidade.

O marxismo, que fundamenta os sofismas de Puscas, é coisa velha e ultrapassada. É incompatível com os avanços intelectuais e tecnológicos que permitem ao velho professor continuar respirando. Se não fosse o capitalismo, que ele odeia e ensina a odiar, não haveria ponte de safena e nem mamária, não haveria, portanto, Puscas.

Longa vida ao professor, mas não às suas ideias mortas. Longa existência à Teresina, mas não à sua evelhescência cruel.

sábado, 2 de outubro de 2010

A importância de cada coisa

No Imperial Hot Dog uma das coisas mais gratificantes (além de ver a satisfação dos clientes) é poder sentar e conversar com as pessoas enquanto elas comem. Sim, porque a comida tem essa característica agregadora, que faz a gente querer compartilhar nossas histórias com os outros.

Semana passada eu ouvi essa, que repasso agora. Ana é advogada e bem-sucedida. Ela vem comer conosco pelo menos uma vez por semana. Ela tem duas irmãs, bem-sucedidas como ela e um sobrinho, de quem eu não lembro a idade. O sobrinho fez um desenho em que homenageia as tias queridas.

Primeiro ele desenhou um pódio. No terceiro lugar desenhou uma das irmãs de Ana. Fez um balãozinho saindo da boca onde se lia "policial". Do outro lado, no segundo lugar, desenhou a outra tia. No balão, escreveu "médica".

Ana recebeu a deferência do primeiro lugar. A preferida do sobrinho, a merecedora da maior honra entre mulheres honradas e satisfeitas com suas profissões igualmente honrosas. No balãozinho que saia de sua boca ele escreveu "Leva para o McDonalds".

domingo, 23 de maio de 2010

A pior lasanha que eu já comi

Queria ter tirado uma foto, ou me lembrar do nome do restaurante, mas não tenho nem uma coisa e nem outra. Eu só sei que o que eu comi foi a pior lasanha que eu já experimentei!
Eu já comi no lugar antes e a comida sempre foi razoável. Lá há um cartaz que diz: "Seja o chef". E tem lindas fotos de pratos de massa. A ideia é que o cliente pode dizer que tipos de acompanhamentos gostaria no seu prato e um funcionário mistura tudo na sua frente.


Nunca parei para pensar que o erro já começa no cartaz que diz "Seja o chef". Como assim?! Se eu vou a um restaurante, suponho que alguém lá deve saber o que está fazendo e que vai satisfazer minhas necessidades de proteína e sabor. Não exatamente nessa ordem. Porém o cartaz devolve a responsabilidade para mim. É como se eu fosse ao consultório e lesse: "Seja o dentista" ou "seja o cardiologista". Eu sairia de lá correndo!

Acontece que eu fui em frente e pedi uma lasanha. A moça me perguntou que ingredientes eu gostaria em minha lasanha à bolonhesa (a outra opção era presunto). Eu comecei a pedir uma coisa e outra e ela me informou que eu podia pedir até oito coisas. Como assim? Oito ingredientes em uma lasanha que já é à bolonhesa? Eu devia ter ouvido a voz que me repetia que alguma coisa estava errada. Mas eu não ouvi.

A comida demorou muito, muito tempo para ser levada ao forno. Depois ela demorou muito, muito tempo para ser servida. Quando finalmente pudemos pensar em começar a comer, percebemos que o prato nem de longe parecia uma lasanha. Era mais como uma sopa com carne moída e todos os oito ingredientes que eu havia pedido.

O gosto era forte. Alho demais. Aguado demais e a massa estava cozida demais. Antes de comer metade do prato, já estava profundamente arrependido da ideia. Mais tarde eu ainda continuava arrependido e com a barriga doendo, sensação de cheio que estragou o meu dia.

Chamei o garçom para reclamar e disse a ele que aquela lasanha tinha muito líquido. Ele se ofendeu e disse que o prato não era de modo algum congelado, embora isso nem tivesse passado por minha cabeça.

Vou pegar o nome do restaurante e publicar aqui. Se alguém estiver lendo isto, pode evitar dor de cabeça e aquela maldita lasanha.

P.S. O nome do restaurante é PIZZA + e fica no Riverside, em frente ao Bob's